Solidão não é falta de autossuficiência

Quem nunca ouviu aqueles ditados como: "Você precisa amar a si mesmo primeiro", "Não precisamos de ninguém", "Você precisa se tornar autossuficiente", "Seja suficiente para si mesmo", e por aí vai. E, ao mesmo tempo, há uma contradição, pois quem realmente se sente só, se sente julgado.

Muito se fala de autorregulação, mas pouco sobre corregulação — um processo tão importante quanto a primeira para regular e amparar o sistema nervoso. Existem evidências científicas que comprovam que o isolamento ou a alienação social têm um impacto profundo no sistema nervoso. O corpo se torna mais hipervigilante, há uma liberação maior de cortisol (hormônio do estresse) e até mesmo um declínio cognitivo.

A solução para a solidão não é se tornar mais autossuficiente, mas reconhecer o papel fundamental que a socialização tem no desenvolvimento. Ninguém existe dentro de um vácuo. E isso é extremamente debilitante, principalmente para quem sofre com fobia social ou depressão, por exemplo. Há o anseio por conexão, mas o quadro em si aparenta atuar como antagonista do próprio bem-estar, afastando quem se aproxima. O sujeito se torna cada vez mais evitante (mas isso é assunto para outro dia).

Podemos comparar a solidão com a comida. A comida tem a sua função; precisamos dela para viver. É fonte de nutrientes e calorias. Se pararmos de comer, teremos consequências fisiológicas como tontura, enjoo, fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração, perda de peso e carências. Agora, imagine uma pessoa que lida com um transtorno alimentar: ela não pode simplesmente decidir parar de comer para resolver o seu transtorno. Ela precisa mudar a relação que tem com a comida e, principalmente, o fundo emocional por trás.

Quando alguém vive em solidão crônica, a tendência é tentar "preencher o vazio" de forma disfuncional, assim como alguém com um transtorno alimentar pode se refugiar na comida (compulsão) ou rejeitá-la (anorexia). Ou evitamos pessoas por completo ou nos sujeitamos a dinâmicas indignas, perpetuando o ciclo da sensação de insignificância.

A questão aqui é: corregulação e autorregulação andam de mãos dadas. O que precisamos fazer é encontrar pessoas que sejam compatíveis com as nossas necessidades. Feridas de relacionamento se curam no contato, quando encontramos pessoas que nos fazem sentir bem e vistas.

Se o foco está sempre naquelas pessoas que não atendem às nossas necessidades, nós iremos nos deparar com a constante dor da rejeição. O objetivo não é tentar mudar o outro ou convencê-lo a reconhecer o nosso valor. É reajustar o foco para outras pessoas. A solução para os sentimentos de solidão e insignificância não é se tornar mais independente, mas encontrar pessoas que retribuam e valorizem de forma segura.

E, para chegar lá, você precisa perceber que merece isso.




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